Ele a esperava. A noite era apenas a última, ou talvez a primeira. Deitou naquela cama, sozinho, com as luzes apagadas com a cabeça acesa. Sua mente não parava, seus olhos não fechavam e tudo que ele pensava era ela, com ela ou dela. De apenas uma coadjuvante, ela passou a atriz principal, atraindo todas as atenções, inclusive a dele, quase sempre distante sem seu próprio mundo.
Naquela manhã, era verão, a ansiedade já o consumia. Fato qualquer ou fato único. Não importava, ele vivia à espera de algo, à procura de alguém, ao encontro do caso. Talvez, naquela manhã de verão, sua espera finalmente tivesse terminado. Entretinha-se com seu livro, como em todas as manhãs, mas aquela não era uma simples manhã. O brilho do sol acendeu sua página e a brisa que entrava pela janela a virou. Em um súbito movimento, levantou seu olhar e desviou-o para o sol, esperando ver apenas uma luz que ofuscasse seus olhos.
Sim, o sol brilhava, mas iluminado por ele, um outro ser sua luz refletia. A pele, a mais pálida que já havia visto e o olhar, o mais profundo que já penetrara seus olhos. Ao perceber que ele a olhava, ela, numa ação ágil e singela, fez surgir um sorriso em sua boca, delineado por lábios gritantemente vermelhos. Ele, desconcertado, apenas sorriu e voltou para seu livro, a fim de não mostrar seu queixo que acabara de cair.
O dia se foi, a correria não parava, mas em sua mente apenas ela. Tudo estava pronto, o despertador programado, o cronograma montado e apenas um objetivo: estar naquele mesmo ônibus, naquele mesmo horário e, quem sabe, com uma ajuda do destino, vê-la novamente.
Assim deitou-se, tentando conter a ansiedade, dormir mais rápido para que o amanhã logo chegasse.

