Ontem, ao cair da tarde dominical, pensei eu em ir ao cinema. Há tempos não visitava tal lugar, e isso já começava a doer em meu peito. Munido de muita vontade e tolerância, aponto meu navegador para o querido Pipoca Atômica, a fim de descobrir o que de bom meu olhos poderiam ver. Rapidamente vi que não era uma das escolhas mais fáceis do mês. Mas não por excesso de bons filmes, e sim pela falta. Nenhum dos filmes em cartaz me chamou tanto a atenção, a não ser pelo juvenil “Percy Jackson e o Ladrão de Raios”. Porém, tal película está sendo exposta apenas em versão dublada aqui na “cidade sanduíche”. E filme dublado no cinema? Não, muitíssimo obrigado. Não me sujeitaria a tal. Portanto, minha última escolha foi o filme cujo trailer até me agradou, ainda mais pelos olhos azuis de sua protagonista, a pequenina Saoirse Ronan, e nomes como Mark Wahlberg, Rachel Weisz, Susan Sarandon e o decepcionante Peter Jackson. Era “Um Olhar do Paraíso”, adaptação do livro “The Lovely Bones” que veio ao Brasil com o título de “Uma Vida Interrompida”, da escritora inglesa Alice Sebold.
Antes de sair de casa, os sinais dos céus começaram a aparecer. Olho minha timeline no Twitter e me deparo com o seguinte twit da querida @samantha0588:
Após uma breve conversa com tal garota, minha vontade dissolveu-se abruptamente. Mas, inspirado pela oportunidade de um breve confronte de ideias e opiniões, preparei-me e fui ao combate. Ao chegar, uma grande fila esperava-me. Outro sinal que foi ignorado. Realizei a compra do ingresso pelo celular e consegui sair de tal fila. Recarreguei minhas munições com pipoca e uma ultra-gelada Coca-Cola, pronto para curtir uma boa sessão de cinema.
Ao sentar em minha poltrona, os trailers se iniciam. Um dos curtíssimos trechos exibidos é de “Ilha do Medo”, nova parceria entre Scorcese e Di Caprio. Ao meu lado, ouço um comentário: “… Ahh, é aquele que dirigiu aquele Os Infiltrados. Aquela merda lá!”. Confesso que a vontade de gritar foi grande, mas me contive. Há alguns meses, eu teria levantado e saído do cinema. Porém, ignorei novamente outro sinal dos céus e continuei na sessão.
O filme começa, gosto do que vejo. Cenas bem feitas, quadros que fogem ao padrão Hollywoodiano, atmosfera setentista que sempre me agrada, carisma da pequena Susie Salmon (Salmon, como o peixe) e algumas boas atuações. Começo a gostar do filme, achar que o que havia ouvido era apenas mais um comum desacordo de opiniões. A história começa a ganhar forma, começa a moldar-se como um filme que me fará grudar na poltrona e sentir junto com tal filme. Percebo atônitos detalhes e continuo, crescentemente, gostando ainda mais.
De repente, como um balde de água fria que interrompe um sonho bom, a notável Susie é assassinada. Tal ato inicia meu sofrimento, com cenas clichês, desgastantes e efeitos dignos de um Hans Donner do agreste. Uma mistura de Cold Case com Além da Imaginação e um pouco de Barney também. Um típica viagem de Ácido Lisérgico, que facilmente se encaixaria como videoclipe de uma das faixas de Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, o viajado e colorido disco dos Besouros de Liverpool. Confesso que algumas cenas agradaram sensivelmente meus olhos porém, mal inseridas no contexto. Um filme que alterna entre momentos de extrema tensão e momentos, possivelmente, retirados de “O Pequeno Príncipe”, com filosofia barata e psicologia digna de fundo de copos americanos em balcões de botecos espalhados pelas mais baixas vizinhaças das mais sujas cidades que o ser humano pôde conhecer.
Quando achei que apenas tais momentos fariam meu gosto pelo filme definhar como um salto de bungee jump originado no topo do Everest, começa uma sessão de fatos que levam o filme mais e mais fundo. Misturando coisas humanamente impossíveis, com conceitos do Espiritismo utilizados sem qualquer pudor ou honra e ainda um desvio no roteiro que fez-me tirar meu celular do bolso para ver resultados das inúteis e desinteressantes Olimpíadas de Inverno. Passados tais momentos de extremo desânimo, volte-me para o filme a fim de tentar encontrar algo que me agradasse. Mas foi impossível.
Caso nos fosse permitido retirar do corte final os momentos “beatlemaníacos” e um pouco do brilhante sol do filme, seria uma perfeita versão de “Max Payne” setentista. Ou, caso adicionássemos uma detetive loira, de olhos claros e nome Lily Rush, pudéssemos exibi-lo em um dos prime-time do Warner Channel como um dos episódios de Cold Case.
Como disse ontem, ao sair do cinema: espero que Peter Jackson amargue todo o LSD que ele consumiu para dirigir tal obra.
Bom, por mais longa, detalhada, inútil e depressiva que minha opinião tenha sido, é o que senti durante o período em que tal história habitou minha mente.
Vejo-os em breve. :D
P.S.: Algumas atuações realmente me surpreenderam, a começar por Stanley Tucci, que incorporou um psicopata fazendo-me esquecer que tal ator já foi obrigado a ceder um imigrante com seus “remédios para bode” graças às peripécias de T. Hanks. Também seguido por Mark Wahlberg que sempre me surpreende, a já clássica Susan Sarandon e a (indicada ao “Troféu David Caruso” de atores como apenas uma expressão) belíssima Rachel Weizs.

