A noite cai, serena, e em minha janela, apenas algumas gotas, provenientes do grande dilúvio, escorrem ao seu bem querer e vontade molhando meus sentimentos e traçando seu caminho até o derradeiro fim. Dentro de meu quarto, meu bunker civil e frio, passo a noite sob a luz de uma vela que desperta-me com um aroma semelhante ao do damasco sendo a única fonte de luz viva nesse local. A televisão, ligada mas ignorada, passa um filme, algo neo-cult-experimental-pseudo-intelectual que apenas ilumina meu olhos e minhas curvas faciais em meio à escuridão noturna.
São três horas na madrugada e nada mais consegue me manter interessado, revistas e livros são esquecido pela mente graças à baixa e falha iluminação e a única coisa que subta e impiedosamente desperta meu interesse é a máquina, móvel mas fixa, restrita mas conectada, que com apenas um tocar de dedos me leva ao outro lado do mundo. Máquina qual proporciona uma canção que vem ao longe, e de longe, caminhando por entre os cabos e fios desde o frio bretão, que no atual momento é a única coisa que nos une.
A criatividade bate à porta, e junto à ela a vontade. A cozinha me espera e nada mais que um sanduíche é necessário para manter meu estômago silencioso por mais algumas horas. O acompanhamento é quente, saboroso, às vezes maçã, ou camomila, que mistura-se ao damasco confundindo minhas pobres e pequenas narinas destreinadas para uma variedade de cheiros digna de um orquidário.
A máquina continua à tocar uma música pianoresca e excita ainda mais a minha criatividade, mostrando me fotos e imagens de todo o mundo, bem como os pensamentos das pessoas que nesse insólito, e desrespeitado, local são apenas hóspedes. E como num passe de mágica, à distância de um clique, o caderno do século XXI se abre e meus dedos rapidamente esboçam algo, sanando parte da vontade criativa que minha mente possuía.
Pego-me pensando em meio à um novo parágrafo e nada mais é páreo para meus dedos, calejados de viver, que ao longo de seus quase dezoito anos já tão treinados, como as asas de um beija-flor, na arte de apertar teclas à seu vão prazer, escrevem com muitas e boas palavras apenas mais um novo devaneio da noite, do dia, do sonho, da música, do aroma, do sabor, enfim… da vida.


